Wednesday, July 05, 2006

Luís Azevedo ::::::: Homenagem Póstuma a Liceu Vieira Dias
Inauguração ::::::: 07.Julho.2006 ::::::: 18.Horas
Espaço Cultural da Livraria Martins Fonte Portugal
Rua Miguel Bombarda, 4A, Caldas da Rainha

Pintura, poesia, vida. Em homenagem ao poeta angolano Carlos Liceu Vieira Dias, um dos fundadores do MPLA, Luis Azevedo, pertencente ao mesmo núcleo intelectual do poeta, (re)cria um lugar. Um lugar de profusão de cor. Profusão de sentimento. Profusão de vida numa homenagem póstuma. Pelas palavras de Dein Keith Simonton, “a criatividade envolve a participação de processos tanto em originar novas ideias como na aceitação social dessas ideias pelos outros”. Esta homenagem em pintura fala de um sentimento que só pode existir em diálogo. Sem respostas, bem ao tom de Luis Azevedo, desafia artistas, pensadores e o público.

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Quisera ser eu,
pródigo, sim ,
de palavras espalhadas em letrinhas,
para bem dizer, o que há de.

Invocar as Musas,
sei não eu.

Mago poderoso que não sou,
limito-me em clamar aos quatros elementos,

para a mim trazer brejeira fala
das morenas catitas
do Bairro Operário.

Invocar as Musas,
sei não eu.

Já o diz majestoso poeta:
-"Com engenho e arte..."
mas,
como tal craveira não tenho,
cinjo-me a:
"Com cuspi e jeito, vai-se ao cu do sujeito"

Poeta, não sou, e,
escritor também, apenas, mero pintor,
e, por isto,
na cor da palavra escrevo.
Sem pincel ou espátula,
o meu irmão Liceu descrevo:

Largo marfim sorriso,
de ebano pele gerado.
Nas grandes Angolas nasceu,
por Kinbandas foi adorado.
Do Imbundeiro fortaleza do
tronco e doçura do seu seco fruto herdou.

Nasceu dominado por colonizador, mas dobrado por ele,
não foi não .
Por crer em Liberdade,
em mundo sem de cor, preconceitos, anos passou em malvada Ilha do Sal.
Torturado e humilhados, mas,
dela um dia saiu.

Sua voz de sofrido homem, em versos seus traduziu,
que de errado havia,
quanto seu povo sofria.

Hoje sua voz calou,
mas o que disse ficou,
gravado no sangue vermelho, de seus irmãos
que semearam os cafezais.

Hoje, livre Angola, palavras por vezes esquecidas:

-Sê livre, sê fraterno e responsável-

- POEMA DE LUIS AZEVEDO

Monday, June 26, 2006

AUTO-BIOGRAFIA, LUÍS AZEVEDO



Luís Azevedo, saltou para o mundo em noite de Setembro entre raios, trovões e valente pé dagua. Os quatro elementos estavam em plena exaltação, um toró de fazer gosto, com raios, ventos, trovões, enchentes, cheiro de terra e de mato, tudo presente. Ynhansã peloos ares bradava seu grito de guerra, era um novo guerreiro que iria despontar. Mãe dele, era medo só, Hayleia, tremia e se encolhia a cada estrondão, de susto começaram as fortes contracções, por isto, e pela cheia, nem tempo teve de sair de casa pois pressa de menino era grande.

Luís Azevedo nasceu em casa na mesma cama em que em ato de amor foi gerado por seu pai José e sua mãe Leia. O velho Zé, que naquela época era novo, mas “faz tudo de vocação”, sem nada saber do ofício de “ajudante de parição“, partejou com coragem e bravura o novo ser que explodia para o mundo. Como da mãe Léia, das tetas, leite não tinha não, o faminto e enfezado ser, botou boca no mundo. Para apaziguar aquela algazarra, o orgulhoso paizão magicou uma solução paliativa, ou seja, entupir àquela grande bocarra com uma chupeta de pano cheiinha de marmelada caseira. Para quem não sabe, nos anos 35, os médicos por àquelas bandas eram poucos, e mais ainda, ainda não se havia descoberto que doce não se dava a recém-nascidos. Sua nascença ocorreu em Jacarepaguá, zona suburbana da esplendorosa Rio de Janeiro, na época era uma zona pobre, mal actualmente é um bairro periférico de privilegiados. Bem cedo, devido a precariedade de emprego, baixos salários e uma selvagem exploração do trabalhador assalariado, cerca dos anos 40, o velho Zé resolveu aventurar-se escolhendo o trabalho independente em zonas mais promissoras e a serem desbravadas, foi ai então, que seu Zé e Léia, marcharam para o oeste em busca das zonas agrestes dos garimpos de quartzo, muito abundantes nos Estados de Minas Gerais, Bahia e Goyaz (naquele tempo era com Y). O quartzo servia de matéria prima quer para a industria óptica, objectos de uso e adorno, mas principalmente para a rádio comunicação. Neste período a Europa ensombrava-se com as nuvens de fumo e pelos clamores dos clarins. O quartzo passou a ter uma importância elevada por ser fundamental para a grande indústria bélica essencial para a luta que se iniciava na Europa e alastrava-se por este mundão afora.

O pequeno Luis, na época franzino e enfezado não teve outro destino do que ficar no seu “ Rio de Janeiro que continua lindo”, vindo ficar a guarda de seus tios , ela, Amelia Azevedo, pintora academista embebida de arte de fins de século IXX , defensora ferrenha dos nús de Rudolfo Amoedo e acerrima critica da nova geração de modernistas brasileiros que apresentavam seu grito de liberdade criativa nos nomes de Tarcilia do Amaral, Portinari, L. Segall; Meli, seu nome artistico passava horas de exercicios de nús artisticos entremeada de naturezas mortas e paisagens bucólicas. O pequeno Luis, preferia estar quietinho observando os nús com seus já pecaminosos pensamentos. Por outro lado, seu tio, Theó, de onde arranjou este nome não sei, sei só que trazia o sangue quente nordestino bem matizado a café oriundo dos não sei onde das Africas. Ele, era musico, violinista, e tia que por moda tinha aulas também de canto lírico acabou caindo nas cantadas do tio e Brasil e Africa estavam unidos dentro da arte. As regras rígidas de um academismo e um modus vivendi elitista fez-me situar logo num contestatário pois nossa morada primeira era num velho palácio que o tempo tornou-o pardieiro pertencente ao Marques de Abrantes. Tinha bem uns vinte quartos e uns três salões , por um lado as suas vastidões mal iluminadas faziam crescer um mundo fantástico de trevas e penumbras que permitiram criar uma semente de imaginário ; este mesmo palácio , de muitas janelas e varandas, se por um lado descortinava-se o bonde de luxo que levava em pleno verão as bem senhoras cobertas de peles e jóias para os espectáculos de opera do Teatro Municipal , que a muito contragosto era obrigado a assistir, e mais, sem comer pipocas ou dedar o nariz; mas também , na traseira do mansão tinha um morro ,e neste, como todo bom morro carioca, uma favela. Favela foi, é e será sinónimo de fome, desemprego, analfabetismo e violência. Oportunidades nenhumas, somente em dias de carnaval onde as cores, os sons das baterias saem do pó e da lama chegando ao asfalto para embasbacar aqueles que moram em casas, tem que comer e mesmo alguns poucos trabalham ou fingem que o fazem.

Num garoto solitário e sensível a contradição transformou logo em interrogação. PORQUÊ? A primeira resposta dada foi : “quem está incutindo idéias comunistas nesta criança”, será que não sabes que eles negam até DEUS. Ai a conversa ficou feia porque surgiu lógo a fatal lógica infantil: Tio diz que Deus Existe, diz que Deus é bom , porque que morre criancinha de fome, porque vão homens para guerra, porque há doença, ???, para mim se DEUS é bom pratica o mal mentindo que é Bem ,portanto eu não alinho com Ele mas com o Diabo que pelo menos não mente. A partir deste instante passei a ser a ovelha negra da família, fui viver umas épocas com meus pais e lá vi de perto a violência gerada pela cobiça de uns e a rebeldia dos inconformados e explorados pelos grandes monopólios. Dentro de mim estava sendo gerado pela própria vida um repertório trágico e revoltado a tudo que era o estabelecido. Voltei mais tarde para o Rio, tive oportunidade de encontrar grandes orientadores e conviver com gente, de todas as classes, de todas as orientações revolucionarias e liberais e aprendi dentro da rua encontrar-me com a noite, e na noita ser noite, encontrar-me com dia e neste ser dia. Aprendi a viver o “aquiagora” . Me apeguei as tintas e telas sem restrição alguma, respeitando somente a minha visão interior de um mundo exterior que mim chegava pelos meus sentidos sem o crivo da razão. Pelo meu primeiro aprendizado entrei numa figuração desvinculada dos cânones academicista, direi mesmo com muita influencia de PORTINARI – “como dizia o saudoso comunicador de massas CHACRINHA : No mundo nada se cria, tudo se copia”, mais tarde a minha permanência em Minas Gerais –Juiz de Fora – passei a ter uma forte orientação do “grupo mineiro de pintura” principalmente de João Santana, Silvio Aragão, Inimá de Paula e de muitos outros que a névoa do tempo faz cair em esquecimento. Ao voltar para o Rio, mais maduro na pintura participei do mundo encantado das mulatas do Pernanbucano Lauria, onde varamos juntos muitas noites de copos, de malandragem e bordeis de todas as classes. Respirei neste instante a beleza do feminino com toda eroticidade dos odores doe perfume, suor e cachaça.

Esta vivência aliada ao imaginário fez nascer um figurativo erótico com uma certa dosagem surrealista. Meu encontro com a minha querida irmã que hoje está misturando cores em outras dimensões, Sheila, puxou-me outra vez para a realidade pois apesar de ser uma maravilhosa pintora vivia na miséria acompanhada somente de seus dois cães e de duas “mulheres de vida fácil” como muitos dizem no seu pobre telheiro compartilhando com as mesmas os seus parcos haveres. Deixei neste tempo a noite para fazer companhia a Sheila que contava as suas intermináveis e gloriosas histórias dos tempos de apogeu. Dai em diante a pintura transformou-se num figurativo de linha agressiva e critica onde a fome e a pobreza imperavam. Nesta época encontrávamos politicamente num período de grande efervescência política no Brasil. Nesta época o pobre e o miserável tinha a esperança de trabalhar para conseguir o pão nosso de cada dia , inclusive a grande mudança numa facção da Igreja no Brasil despia-se da ostentação e luxo, Don Helder de Barros Camara apoiava os se terra e todos acreditavam num Brasil liberto e numa América Latina senhora de seu próprio destino, neste tempo tive o prazer de conhecer e apertar a mão de CHE GUEVARA e neste instante todo meu poder comunicativo ficou sufocado frente ao “ IDEAL FEZ-SE HOMEM”, talvez tivesse eu esta mesma emoção ao apertar a mão de Jesús ou Maomé.

A minha pintura na época foi a arma da minha luta, mas, o que é bom dura pouco e os generais em nome de “deus, pátria e família “ e claro com o apoio da CIA e do “TODO PODEROSO USA” derrubaram João Gulart ,vice presidente eleito pela desistência de Janio Quadros e instalaram a mais nefasta ditadura fascista, talvez do mundo. Muito do que passou não ficou registrado ,os mortos não falam e os torturados foram lançados num abismo mental do esquecimento total. Tive mais de uma exposição no Rio encerrada e quadros destruídos. Minha casa foi muitas vezes invadida em busca de material subversivo. Dava aulas de informática na Escola de Economia Candido Mendes, nestas aulas tinha na primeira fila dois coronéis vigiando a minha fala. Em 1967 sai do Brasil, fui para Angola onde me reencontrei dentro de um lado místico e cultural que estava geneticamente instalado no meu interior mas encontrava-se adormecido. Em Africa convivi com meu querido irmão LICEU VIEIRA DIAS belíssimo poeta, onde o sofrimento de muitos anos de prisão na ilha do SAL encheu-lhe de compreensão e amor ao próximo, este profundo contacto ensinou-me mais da vida do que muitos anos de leitura e pensando nele faço esta exposição que é uma libertação de todas as regras, é uma desorganização caótica que oferece a mim mesmo uma volta a era em que do “NADA NASCEU O TUDO:”
EXPOSIÇÃO NO ESPAÇO LISBOA 2000 / EXHIBITION AT ESPAÇO LISBOA 2000

VIRGEM NEGRA

TOCATA EM FUGA



VARIAÇÃO DE BACH #1




VARIAÇÃO DE BACH #2




VARIAÇÃO DE BACH #3




UMBIGO DO MUNDO


THE GREAT BOOM



SEXTETO FRAGMENTADO




SEXTETO DE CORDA #1


TEMP




TEORIA DA INVOLUÇÃO




RONDÓ CAPRICHOSO


RODA DA VIDA #1




RODA DA VIDA #2




OS CINCO ELEMENTOS




PADILHA DE TRIN





PALAVRAS PERDIDAS





OLHOS NA NOITE


NOCTURNO #1



NOCTURNO #2




NOCTURNO #3





NOCTURNO #4




NOCTURNO #5


MUSEU DE ANGOLA / ANGOLA MUSEUM


EXPOSIÇÃO NO MUSEU DO BOMBARRAL / EXHIBITION AT BOMBARRAL MUSEUM

MOVIMENTO



MULHER DEITADA




MORENA




INICIO DE TUDO


EXPOSIÇÃO NA GALERIA PENTÁGONO / EXHIBITION AT GALERIA PENTÁGONO









FILHOTE DE DRAGAO



FILHOTE DE DRAGAO AZUL




FRAGMENTOS





GIRA MUNDO


ESTADO #0



ESTADO #1




ESTADO #2




ESPIRAL


ENIGMA

EM NOME DE FREUD

ELO FRAGMENTADO

DUO

DUETO EM CORDA